O TEXTO JORNALÍSTICO IMPRESSO
Fonte: Professora Drª. JOANITA MOTA DE ATAIDE
1. INTRODUÇÃO
1.1 TEXTO: CONCEITUAÇÃO
Texto, para Guimarães (Apud COIMBRA, p.8), é um ato produzido conforme as regras de um sistema gramatical, um ato orientado para influenciar o comportamento do receptor e, finalmente, um ato responsável pelo efeito produzido no receptor.
Um texto – conjunto de enunciados e produto intelectual/cultural – compõe-se de dupla estrutura: uma externa, originária do contexto em que é produzido, e uma estrutura interna, que compreende a forma com que é organizado e as relações mantidas entre os elementos componentes da forma. A face interna do texto compõe-se ainda de forma e conteúdo.
Vamos analisar, primeiramente, cada uma dessas estruturas, para, em seguida, apresentar o conceito de texto dos autores cujas idéias aqui discutimos.
Numa segunda etapa, seguindo o objetivo deste trabalho – analisar a estrutura interna do texto da notícia impressa – vamos transpor tais conceitos para um estudo sobre a estrutura da notícia, feito por Oswaldo Coimbra a partir de trabalhos de Nilson Lage, nesta área.
Como terceira etapa, trabalharemos a noção de estrutura aplicada ao que os autores da área da Literatura e do Jornalismo chamam de superestrutura, de estrutura, de matrizes de gêneros, e de processos de composição textual, para designar a narração, a descrição e a dissertação.
Oswaldo Coimbra, (1993, p.12) autor a partir do qual estruturamos este texto, considera a narração, a descrição e a dissertação “modelos de estrutura do texto da reportagem.”
Em referência à narração, estrutura cuja análise é nosso objetivo primeiro, extrapolamos nosso estudo – como também o fez Coimbra – e analisamos um modelo de estrutura da narrativa, proposto por Guimarães (Apud COIMBRA, 1993, p.15), na perspectiva de Van Dijk.
Assim, na elaboração de um texto ou discurso qualquer, interferem dois elementos: uma dada realidade externa a que se refere o texto/discurso e uma dada realidade interna desse texto/discurso.
1.2 TEXTO: ESTRUTURA ABERTA
A primeira face (ou face aberta) do texto, na concepção de Coimbra, é uma estrutura ligada ao contexto extraverbal.
Essa ligação texto ® realidade de que se fala no item anterior nos coloca a questão: - Que tipo de realidade se instala no texto/discurso jornalístico? Reprodução fiel, reconstrução de alguns de seus elementos ou uma supra-realidade, desconectada do contexto a que se refere o texto? (Idem, p.7)
Elisa Guimarães, em “A Articulação do texto”, chama os “elementos de realidade reconstruídos” no texto de “referentes situacionais”.
Em relação à concepção de texto como reprodução da realidade, Samira Challub (Apud Coimbra, p.21) questiona a perfeita correspondência entre signo e coisa, realidade e discurso. Isto é: questiona se a linguagem pode reproduzir fielmente o real.
No jornalismo, costuma-se imaginar que se trabalha unicamente ou quase sempre com a linguagem concebida como denotativa referencial, capaz de refletir o mundo, e de proporcionar transparência, equivalência e colagem entre coisa e discurso.
Seria o texto, ainda, uma “supra-realidade, desconectada do contexto no qual nasce (...)?” (Coimbra, p.7) Analisando as reportagens de Marcos Faerman na Revista Realidade e no tablóide Versus, Cláudio Willer (crítico e ensaísta) diz, no Prefácio do livro “Com as mãos sujas de sangue”, “que subjaz nos textos reunidos no livro a questão fundamental sobre a realidade do que está sendo descrito, isto é, sobre a articulação entre o conteúdo das reportagens e aquilo que seria o ‘real’.” A reportagem, ainda segundo Willer, e as demais formas de linguagem e de registro dos fatos, apenas levantam a ponta do véu, selecionando e privilegiando algum fragmento de uma totalidade.
1.3 TEXTO: ESTRUTURA INTERNA
Elisa Guimarães conceitua texto como um ‘sistema concluído’, ‘um conjunto hierarquizado de configurações estruturais internas’, ou seja: seus elementos (partes, conceitos) são internamente organizados.
Para José Milton Pinto (Apud Coimbra, p.8), o conceito de estrutura, no Estruturalismo, não difere muito do conceito matemático: “um todo constituído por partes articuladas”. As partes são os elementos constitutivos do todo, e as articulações se definem por uma expressão indicadora de relações.
Segundo Guimarães (Idem, p.8), estrutura é “a rede de dependências e implicações que um elemento mantém com todos os outros, no conjunto em que se encontra.” Essa rede de dependências funciona da seguinte maneira: os elementos tomam determinada forma, articulando-se num processo chamado pela autora “construção interativa”, e passam a ter participação específica no conjunto. O processo é chamado interativo em face de a dependência ser de tal forma que a eficácia (a produção de efeitos pretendidos) do todo depende do funcionamento de cada um dos elementos. A atuação de um elemento influi no funcionamento das outras partes e do conjunto.
Essa interação faz ver que “a noção de forma subentende a de função, ou seja, integrado no texto, que é a forma, qualquer elemento passa a desempenhar uma função, e essa função determina o seu significado no todo em que se integra.” As noções de forma e função compõem o conceito de estrutura.
Para Halliday e Hasan (Apud Coimbra, p.8), “a existência da estrutura é condição essencial para a ‘textura’.”
Dessa forma, temos um texto interagindo “num processo global de comunicação quando o contexto das interferências externas a ele se completa com o de sua estrutura formal e do seu conteúdo temático.” (Guimarães, Apud Coimbra, p.8)
Compondo o conceito de texto iniciado no item 1.1, concluímos com Guimarães (Apud Coimbra, p.8) que o texto é um produto cultural com as seguintes características:
a) organiza-se segundo as normas de um sistema gramatical [e retórico];
b) objetiva influenciar comportamentos;
c) responde pelo efeito produzido no público.
No Jornalismo, tem-se dado ênfase quase exclusiva ao estudo do texto enquanto instrumento de análise política, sociológica ou histórica. Privilegia-se, portanto, a superestrutura em que a instituição jornalística se insere, isto é, seu contexto ou diegese. Raramente o jornalista se debruça sobre a estrutura interna do texto/discurso, para tentar entendê-la e aperfeiçoá-la.
1.4 ESTRUTURA DA NOTÍCIA
1.4.1 Um dos poucos estudos sobre a estrutura do texto/discurso jornalístico partiu de Nilson Lage, em Estrutura da notícia. Eis a estrutura configurada por Lage (Apud Coimbra, 1993, p.21) nos jornais brasileiros:
v 1º. lead mais importante (L1) – 1º Parágrafo @ ao 1º evento em importância
v 2º. lead em importância (L2) – 2º Parágrafo @ ao 2º evento mais importante
v 1º. Entretítulo (E1)
v 1º. Parágrafo (ou primeiros par.), com a 1ª documentação (D1) – relativa ao L1
v 2º. Entretítulo (E2)
v 2º. Parágrafo, com a 2ª documentação (D2) – relativa ao L2
Equação daí resultante: L1 L2 El D1 E2 D2.
v Outros lead vêm em seguida, precedidos de entretítulos e seguidos imediatamente de suas documentações.
1.4.2 Encontramos nos manuais de redação jornalística outros modelos de estrutura da notícia. Destacamos os dois seguintes:
(1) De SODRÉ, M. & FERRARI, M. H. (1978, p.79):
¨ Enumeração dos fatos com sua conclusão
¨ Fatos que produziram a conclusão
¨ Detalhamento dos fatos principais
¨ Fatos posteriores, conseqüências
(2) VEJAMOS OUTRO MODELO:
¨ Entrada, relato dos fatos principais, culminantes
¨ Fatos ligados à entrada
¨ Fatos de importância intermediária
¨ Pormenores interessantes
¨ Detalhes dispensáveis
1.5 MATRIZES DE GÊNEROS
Embora haja sempre num texto uma estrutura dominante, aquela que representa o seu esquema fundamental, pode haver também parte de outra estrutura (ou de outra matriz), adquirindo a configuração de texto misto. Um certo número de constantes, presentes no texto, é que vão classificá-lo como pertencente a um gênero ou a outro. (Coimbra, p.11)
Narração, descrição e dissertação: modelos de estrutura do texto da reportagem. (Idem, p.12)
2. NARRAÇÃO – NARRATIVA
2.1 ESQUEMA NARRATIVO: CATEGORIAS
Segundo Guimarães (Apud Coimbra, p.15), três categorias tecem o esquema narrativo:
v EXPOSIÇÃO
v COMPLICAÇÃO
v RESOLUÇÃO
Podem ainda completar o esquema uma avaliação e uma moral. (Idem, p.15)
2.2 CARACTERÍSTICAS
2.2.1 DIMENSÃO TEMPORAL
“Os componentes que nele se processam têm relações mútuas de anterioridade e posterioridade.”
2.2.2 AÇÕES DE PESSOAS
A estas se subordinam descrições de circunstâncias e de objetos. Esta é a característica fundamental.
2.3 MODELOS DE ESTRUTURA
2.3.1 MODELO 1 (de Van Dijk, Apud Guimarães , Apud COIMBRA, 1993, p.15)
v Estado inicial – equilíbrio – situação estável;
v Ação transformadora que corresponde à intervenção de uma força perturbadora, acarretando um estado de desequilíbrio;
v Ação transformadora que corresponde à força da reação do actante principal. Daí decorre:
v Estado final (equilíbrio, mas diferente do Estado Inicial)
2.3.2 MODELO 2
Paul Larivaille relaciona os elementos de uma seqüência-tipo:
v SITUAÇÃO INICIAL
v PERTURBAÇÃO
v TRANSFORMAÇÃO
v RESOLUÇÃO
v SITUAÇÃO FINAL
3. DESCRIÇÃO
3.1 CATEGORIAS
“Há categorias específicas que definam a estrutura (ou superestrutura) do texto descritivo?”
Segundo Guimarães (Apud COIMBRA, 1993, p.19,20), ele pode se “amoldar a um esquema organizacional”; mas as categorias do texto descritivo tradicionalmente se relacionam às categorias da narração e da dissertação. Nessa perspectiva, a categoria estrutural do texto descritivo é a expansão ou a retardação ou digressão.
Segundo Phillipe Hamon (Apud Guimarães, Apud Coimbra), a descrição comporta as seguintes categorias:
um tema-chave que enuncia a seqüência descritiva;
uma série de subtemas;
expansões predicativas (atribuições de qualidades, ações, aos subtemas).
3.2 DESCRIÇÃO DE PESSOAS
3.2.1 PESSOAS/PERSONAGENS
Nos textos de reportagens-perfil encontram-se quadros de categorias descritivas relativos às características psicológicas de pessoas, aplicáveis à atividade jornalística. Na entrevista e em outros momentos da cobertura jornalística, o repórter observa as pessoas que se tornarão personagens de seus textos. Dualidade que corresponde à dupla dimensão da função de jornalista: repórter - coletador de informações da realidade – e de redator: estruturador de textos. Essa dualidade é imanente à função do jornalista, assim como o texto tem dupla face: uma, voltada para o mundo externo – o contexto ou “referentes situacionais”, segundo Guimarães (Apud Coimbra, 21) -, e outra, para sua organização interna ou estrutura. (Idem, p.20,21)
4. DISSERTAÇÃO
4.1 FIM, segundo Othon Garcia (Apud COIMBRA, 1993, p.13): expor, explanar, explicar ou interpretar idéias. Dar a saber algo.
4.2 ARGUMENTAÇÃO
a) Fim: convencer, persuadir, influenciar. Fazer crer em algo.
b) Elementos: Consistência de raciocínio e evidência das provas.
c) Critérios de aferição de veracidade (EVIDÊNCIA):
(1) APRESENTAÇÃO DE FATOS:
“Os pronunciamentos, em geral generalizações, se apóiam em especificações que são, grosso modo, prova dos fatos.” (Coimbra, 1993, Apud Othon Garcia, p.14) Para que sirvam de prova, eles têm de ser acuradamente observados. Fatos não são indícios; indícios não são provas. São probabilidades ou possibilidades. Há graus de probabilidades ou possibilidades. O grau de probabilidade das inferências varia com as circunstâncias.
(2) TESTEMUNHO:
Para ter valor de prova, é preciso ser autorizado ou fidedigno. O mesmo fato visto por várias pessoas pode assumir proporções e versões as mais diversas.
(3) EXEMPLOS:
Tipos de fatos típicos ou representativos de certa situação.
(4) ILUSTRAÇÕES:
Exemplos que se alongam em narrativas detalhadas e entremeadas de descrição.
(5) DADOS ESTATÍSTICOS:
Grande valor de convicção, quando se tornam incontestáveis. Servem tanto para provar como para refutar a mesma tese. p.14
4.3 REPORTAGEM DISSERTATIVA:
Mistura de informação e persuasão: “aceitar a informação no contexto de um raciocínio que se pretende correto. (...) Assim, dissertação e argumentação são sinônimos.” p.13
4.4 TEXTO LITERÁRIO E TEXTO NARRATIVO
Tanto na narração literária quanto jornalística, a ação representada ou a ação vivida, caem todas nas mesmas categorias. Assim, há diferença entre uma narrativa e outra?
FIORIN & SAVIOLLI em Para entender o texto citam três características que poderiam distinguir um do outro:
a) CONTEÚDO:
“Não há conteúdos exclusivos dos textos literários, nem conteúdos avessos ao seu domínio.”
O caráter ficcional dos textos cria a dificuldade : - Como discernir o real do fictício, em situações específicas como a de um texto religioso, por exemplo?”
b) FUNÇÃO DO TEXTO:
- o texto não-literário tem uma função utilitária: informar, convencer, documentar;
- o texto literário tem função estética: o conteúdo não é apenas veiculado, mas recriado, de modo tal que não importa apenas o que é dito, mas o como se diz. A valorização da expressão no jornalismo deve respeitar a clareza: vetada a produção de texto radicalmente autocentrado – sem a função referencial. p. 18
BIBLIOGRAFIA CONSULTADA
COIMBRA, Oswaldo. O Texto da reportagem impressa. Um curso sobre sua estrutura. São Paulo: Ática, 1993. 183p.
FIORIN, José Luiz & SAVIOLI, Francisco Platão. Para entender o texto. Leitura e redação. 11.ed. São Paulo: Ática, 1991.
BIBLIOGRAFIA COMPLEMENTAR
CHALLUB, Samira. Funções da linguagem. São Paulo: Ática, 1987.
GARCIA, Othon. Comunicação em prosa moderna. Aprenda a escrever, aprendendo a pensar. 13.ed. Rio de Janeiro: FGV, 1986.
GUIMARÃES, Elisa. A Articulação do texto. São Paulo: Ática, 1990. (Princípios)
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